Rodri e os "Rodriguinhos"
Há uma coisa curiosa no futebol moderno, conseguimos torná-lo mais inteligente… e, ao mesmo tempo, menos divertido. É como trocar um prato de francesinha por uma salada de quinoa, sabemos que faz melhor, mas não era bem isto que nos fazia felizes ao domingo.
Ainda recentemente, num desses podcasts nacionais de futebol, onde se fala com leveza sobre coisas que antes resolvíamos aos gritos no café, ouvi uma frase que me ficou atravessada: “o extremo passou a ser um Rodri e deixou os rodriguinhos”. Ri-me. Depois pensei. E, infelizmente, fez demasiado sentido.
O extremo, essa criatura outrora selvagem, foi oficialmente domesticado.
Houve um tempo em que o extremo era o miúdo da rua que ninguém conseguia parar. Corria com a bola colada ao pé como se tivesse cola UHU nas chuteiras, fazia túneis por puro gozo e cruzava sem olhar, porque olhar era perder tempo e estragar a magia. Chamavam-lhe “rodriguinho”, com aquele carinho meio paternalista, meio desesperado de quem já sabia que dali ia sair asneira… mas uma asneira bonita.
Hoje, o extremo olha para dentro. Literalmente. Recebe na linha, trava, roda, passa para trás, fecha no meio, posiciona-se entre linhas, oferece apoio interior, equilibra o bloco. Em vez de partir rins, parte… linhas de passe. Tornou-se uma espécie de médio disciplinado, um discípulo aplicado da escola do controlo, quase a jogar à Rodri, esse símbolo máximo da ordem, da pausa, da superioridade posicional.
O extremo deixou de ser um problema para o adversário e passou a ser uma solução para o treinador.
E atenção, isto não é necessariamente mau. O futebol evoluiu. Há mais rigor, mais inteligência coletiva, mais leitura do jogo. As equipas são máquinas afinadas, onde cada peça sabe exatamente o que fazer, quando fazer e, sobretudo, quando não fazer. O caos foi substituído pela coreografia.
Mas no meio desta evolução, talvez tenhamos perdido qualquer coisa difícil de quantificar, o improviso irresponsável.
Hoje, um extremo que tenta três dribles seguidos e falha dois é visto como um risco. Antigamente, era visto como um artista em construção. Agora pede-se critério, decisão, eficiência. Antes pedia-se apenas e só… atrevimento.
O futebol moderno tem medo do erro. E o problema é que o erro sempre foi o melhor amigo do espetáculo.
Claro que é mais fácil ganhar jogos com extremos que sabem quando temporizar, quando fixar, quando jogar por dentro. Mas será que é mais divertido? Será que o adepto que paga bilhete quer ver um extremo a fechar como médio defensivo ou quer ver alguém que faça o lateral adversário questionar as suas escolhas de vida?
No fundo, o extremo moderno é um reflexo do próprio futebol, está mais preparado, mais estudado, mais seguro… e talvez um bocadinho mais aborrecido.
Os “rodriguinhos” foram arquivados como relíquias de um tempo menos sofisticado. Mas, ironicamente, talvez fossem eles que davam ao jogo aquilo que nenhuma análise tática consegue prever: o inesperado.
E no meio de tanta organização, talvez seja isso que mais falta faz.
Um bocadinho de desorganização.



