Uma questão de ADN
O Benfica chega a Novembro de 2025 num estado de inquietação que já não se explica apenas com números, mas com algo mais profundo, uma perda de identidade. A recente reeleição de Rui Costa, apesar da larga vantagem sobre Noronha Lopes, não dissipou as dúvidas nem acalmou o ambiente em redor do clube. No seu anterior mandato, o presidente prometera estabilidade e reconstrução, mas o que se viu foi um Benfica irregular, pobre em futebol e distante daquilo que sempre o caracterizou. E, a julgar pelos primeiros meses desta nova época, pouco parece ter mudado.
José Mourinho regressou à Luz com o peso da história e o prestígio de quem sabe o que é ganhar. Trouxe exigência, liderança e um discurso de quem percebe a dimensão do Benfica. Mas, passados cerca de dois meses e com 12 jogos oficiais disputados, o cenário é preocupante: apenas seis vitórias, um futebol cinzento e uma equipa sem alma. E, no entanto, seria injusto apontar o dedo ao treinador. Mourinho não é o problema. É, neste momento, talvez a única âncora de autoridade num grupo que parece desligado da realidade e sem fome de vencer.
O plantel é curto, desequilibrado e mal montado. A falta de critério na sua construção está à vista de todos. O Benfica joga praticamente com um único extremo puro, Lukebakio, e quando ele não está, a equipa perde completamente a capacidade de alargar o jogo e de criar desequilíbrios. Num clube que sempre viveu de alas rápidos e irreverentes, esta limitação é um símbolo da mediocridade do planeamento. O ataque carece de soluções, o meio-campo não tem intensidade nem criatividade, e o setor defensivo vive mais do instinto do que da organização.
Mourinho tenta disciplinar, reorganizar, devolver competitividade. Mas o que se vê em campo é uma equipa apática, previsível, sem chama. Jogadores que deviam ser líderes e que conhecem o que significa o Benfica raramente se impõem. António Silva, exemplo máximo da formação, não tem conseguido carregar o peso simbólico de representar o clube em campo. É Otamendi, já veterano, quem continua a dar o exemplo, a gritar, a lutar, a ser Benfica. E isso diz tudo sobre a falta de ADN de quem devia garantir o futuro.
Mais do que falhas táticas, o problema é de atitude. Falta vontade, falta orgulho, falta o sangue na guelra que fez do Benfica um símbolo de paixão e de conquista. Hoje, o que se vê é um grupo conformado, sem aquela raiva boa de quem quer ganhar tudo. Mourinho pode corrigir posicionamentos, pode reorganizar dinâmicas, pode apertar o balneário, mas não pode ensinar caráter. Ou se tem, ou não se tem.
Desde agosto, as exibições têm deixado um rasto de frustração. O Benfica vence sem convencer, empata sem lutar e, quando perde, fá-lo com indiferença. A equipa não joga à Benfica, e isso é o que mais fere os adeptos. O problema não está no banco, está no balneário, e enquanto essa mentalidade não mudar, nenhum treinador, por mais prestígio que tenha, conseguirá devolver a alma a este clube.
Rui Costa tem agora a responsabilidade de romper com a inércia. Se este novo mandato for mais do mesmo, o Benfica continuará a afastar-se do que o torna especial. Não basta falar em projetos ou estabilidade. É preciso reconstruir um grupo com fome, com orgulho, com o verdadeiro ADN benfiquista. Mourinho pode ser o início de algo importante, mas só se tiver à sua volta jogadores que queiram verdadeiramente ser Benfica.



